domingo, dezembro 04, 2005

Classificados .3

perguntaram-me no átrio da Torre se queria uma revolução e eu ri-me sem vontade e balbuciei em mau Inglês

ai daun-te nâo uat-se gouingue one... ai ri ali daun-te eve a quelu

e depois (agora no dia seguinte) lembrei-me dessa pergunta sorridente
e de um rapaz a pedir dinheiro no Bairro Alto, a prometer que não bebia por princípio e religião, acabando a cantar mornas de Cabo Verde com uma imperial na mão e um maço de Marlboro no bolso;
lembrei-me do quanto detesto Marlboro
e do modo como um amigo me diz que peça a paz mundial e uma bica ou a harmonia entre os homens e um pastel de nata às senhoras da Esplanada que o tratam por Sr. Anjo e me tiram cafés curtos sem que eu os peça;
lembrei-me do café que parece uma tasca que parece um bar onde costumo estar à noite sem saber porquê
e do dono enorme, com cicatrizes na cara, furioso por não ter ido ao Coliseu ver Kusturika e que me pede que lhe traga cd's do Goran Bregovic, preferindo manter despesas incómodas a despedir pessoal
e todo este absurdo é confuso e é delicioso
e a cada dia me parece estar mais longe disto tudo por tudo ser tão confuso e absurdo e incrível e eu me achar alheio a um Segredo Comum que mantém estes sítios de pé


como uma raiz espantosa até ao centro do mundo.

2 comentários:

groze disse...

Tão, mas tão deliciosamente bonito...

sete-sóis disse...

Concordo: deliciosamente bonito.