quinta-feira, janeiro 19, 2006

Sujidade de luzes sem filamento

no silêncio, querido
através das madressilvas
através dos olhos
contámos segredos de sangue um ao outro
através das sombras que cortam como madressilvas
nas casas abandonadas por entre sombras
e madressilvas
contámos segredos e descompusémos lençóis
e perguntámos
para onde dão certas portas
para onde dão certos corredores
meu amor
meu querido
através da noite queimámos madressilvas
para afugentar as sombras e bebemos
amargos e sem sede
o sangue que me escorria das pernas.
meu querido, sanguínea forma que me conta
histórias quando anoitece,
embala as minhas pestanas e os meus olhos por dentro da noite
e descobre-me por entre as ruínas das cidades.
tudo em volta ardeu, meu amor,
meu querido,
não me restam mais anéis nem mais dedos
para pôr anéis
não me restam mais sombras
só segredos, meu querido,
prontos a cortar as sombras como se madressilvas.

prontos a atravessar o mar nas tuas costas enquanto me abraças.

2 comentários:

Marta disse...

"embala as minhas pestanas e os meus olhos por dentro da noite/e descobre-me por entre as ruínas das cidades./tudo em volta ardeu, meu amor/..."

O poema é lindo, todo ele...
sublime e intenso

[Dementia] disse...

Sem palavras...
Muito bom mesmo... :x
Abraço[]