sábado, setembro 15, 2007

quinta-feira, agosto 02, 2007

Presente do indicativo

tenho um coração escuro onde plantar
uma árvore de fios de nylon.
tenho olhos com os quais posso ver
e sentir e chorar e morrer lentamente.
tenho mãos gastas com que compôr
teias de aranha de tamanhos e sabores diversos.
tenho um corpo que se arrasta e sobrevive
e se rodeia de luzes apagadas, vidas vegetais.

domingo, junho 24, 2007

âmbar

tenho boca.não.tenho uma lâmina no lugar dos lábios.
.tenho a noite a morrer-me nas mãos.como a febre.
a amplitude dos olhos.na raíz da lâmpada.a saliva húmida.
tépida.a saliva.e o vómito.

rituais

tenho nas mãos a.incerteza do grito.
o bloco de notas.as feras.o isqueiro.
o cigarro come.me os ossos.as veias
transitam.
na água.o nome.a omnipresença.
de ti.




cláudia ferreira

sábado, junho 23, 2007

a redenção de sofia

vê como chora a puta com a espingarda na boca
como cerra os dentes de ouro contra o soalho
vê como se iluminam as mãos nesse momento
e a ternura se acende no interior dos ossos.


como se entrelaçam os rios e imploram
a lascívia e o fracasso
[a cabeça esmagada entre os joelhos]


cláudia ferreira

quarta-feira, julho 05, 2006

Fogo Nº 8

Há o fogo, e sua ausência eu li nas cartas,
Há o retrato empoeirado sobre a mesa,
A cabeceira das coisas
Nunca é diferente do que eu pensei,
É tudo paciência, é prece, é jogo, eu sei,
Dói feito carne sob as unhas,
Que me atravessam fazendo surpresa,
Rasgando cartas,
Triturando as lembranças de sua letra desenhada,
Letra de mulher, oca e encarrilhada,
Amontoado de coisas.
É tudo um atropelo, um entalo, e nunca sai,
Então seu nome me embaraça enquanto cai,
É pestilência, beijo ardente, mãe e pai,
Cutículas e coisas de mulher.
Há um lugar no espaço onde a mulher se localiza,
Quem sabe uma carta perfumada me saiba ler.
Agora me extravasa, preguiçosa, a brisa,
Também raquéis, marias, lias,
Rondando os pés da mesa,
Passando feito foto, cortando feito carta,
Eu nunca lembro a oração que é certa,
É sempre diferente e eu não notei.
É tudo indiferença, é logro, é outra vez,
Deus ainda insiste em me aparar as unhas,
Pr’eu não arranhar o Filho por detrás da barba.
Eu sigo descascando minha pele até sangrar,
Sigo dormindo cedo, sentindo muito medo,
E quando chove, seu nome cai do céu...

sexta-feira, junho 09, 2006

"Anos, Metamorfoses & Companhia Lda."

Estão convidados a aparecer amanhã, Sábado, 10 de Junho pelas 15h na galeria mixsoul para o lançamento do livro "Anos, Metamorfoses & Companhia Lda." de Maria Rocha (ao que parece, sou eu).

Para mais informações, visitar os links que se seguem:

terça-feira, maio 09, 2006

Explícito

não há muito que te pertença aqui nos destroços das palavras
que conseguiste arrancar do meu corpo
ficaram as nódoas do sangue inextinguível
por entre as camadas de pele
ficaram os ossos no mesmo sítio
apesar do ruído dos mesmos a estalar ter ensurdecido um par de ouvidos

na verdade, não há nada que te pertença nestes centímetros de carne
além dos destroços das palavras

e

das marcas dos dentes incisivos na parte de dentro dos pulsos

nunca te contaram a história da evolução e do progresso, pois não?

repara: uma linha permite-nos evoluir mas um círculo não

da próxima, alimenta-te de forma linear

sábado, abril 15, 2006

reticências

Reparo: digo coisas que não têm som. Digo coisas estranhas que se arrastam pelos limites
da casa, o que existe lá fora, já se sabe, é outra coisa, é estranho,
é frio ou quente, dependendo das estações do ano,
o ano move-se, lá fora, rodopiando espinhas de peixes e penas de aves
à janela, peixes beijando aves, comendo aves,
aves bebendo peixes, voando para longe com espinhas cravadas nos olhos.
Digo coisas: peixes, aves
e nessas coisas que digo não ponho sentimento algum,
sentido algum,
reparo nisso, na falta de uma coisa mais que já não há.
Reparo nos peixes ao lume, mortos, mas vivos de escamas e de espinhas e de olhos
sem luz sem qualquer láctea humidade de estrelas aquáticas.
Reparo no que digo e calo-me perante o absurdo das palavras.
Penso e reparo e digo coisas. Coisas estranhas.
Café. Entranhas.

sábado, março 18, 2006

epigrama

vil vivera
ora envelhecia

(envilecia)

loquaz avesso
de quixote

(surdo e vesgo)

sem moinhos


Márcia Maia

domingo, março 12, 2006

Depuraçao

Pudesse eu inventar
uma palavra pura...

Que tivesse em si
tudo e cada coisa
ao mesmo tempo,

o maior dos prazeres.

Mas não invento
que nunca mais
repeteria o prazer

morrendo nele.

Tiago Tejo

sexta-feira, março 10, 2006

Bestiário Um


mapa para a GALERIA MIXSOUL onde vai decorrer o lançamento de Bestiário Um, 1º livro do totalmente desconhecido mas certamente futuro Nobel, João Silveira, este Sábado, dia 11, pelas 17h.

quarta-feira, março 08, 2006

Heptágono I

a noite não tem aquilo a que se possa chamar de
som
não tem aquilo que se possa chamar de
cheiro
apenas se estende por onde são os pântanos da alma,
por onde são as pestanas do mundo,
arrastando sonhos. folhas.

sexta-feira, março 03, 2006

Igniçao

Apetece-me
pegar em mim,

desfazer-me.

Voltar a montar
tal como vinha
no livrinho de
instruções.

Por mero acaso
trocar a ordem
acabar metáfora.


Tiago Tejo

quarta-feira, março 01, 2006

Palavras Ditas


Palavras Ditas vai voltar com novas poesias, desta vez com o tema

POESIA ERÓTICA
às 21h, sábado, 4 de MARÇO na galeria Mixsoul na Damaia



entrada livre!

terça-feira, fevereiro 28, 2006

A Teoria do Punho

tudo me é eterno
os punhos nunca envelhecem
apesar de eu já lhes sentir ténues linhas
que o tempo vem desenhando a cada nascimento que faço

a vontade de arrumar a um canto a cabeça e tudo o que lhe pertence
é agora primordial como o eu agarrar agora mesmo dentro do punho
toda a minha força e decidir se o abro ou se o fecho

escolhe-se arrumar-se o corpo a um canto

primeiro o corpo
a cabeça
os membros
os olhos
a boca – que já de nada serve há muito

os punhos nunca

tudo me é eterno e os punhos jamais cedem
mesmo se gastos
mesmo se mortos

a minha morte é outra
a minha é outra.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Pedal

Um pouco mais
de pedal
eu era vento.


Tiago Tejo

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

sub mare


vi hoje Lisboa largar-se ao céu em braços e cabelos que poderiam também ser estrelas, poderiam ser casas caídas em ruas cujo nome não sei, poderiam ser e foram nesse mesmo instante

uma palavra nunca dita a tempo
ou os dedos que se perderam em afectos numa pele sem destino aparente
ou os olhos que se cruzaram num fogo súbito
pois que tudo se consome assim num pé de fogo, dançando

dir-te-ia meu amor julgando cabelos e dedos magros compridos o que afinal eram estrelas e um reflexo incrível sobre o Rio, Lisboa submersa largando-se em tons azuis, dir-te-ia todas as mentiras, as mais lindas, as que se conjugassem numa só noite.
num só corpo, indivisível. indizível.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

tudo o que tenho são sentimentos pequenos
doenças que
crescem na ambiguidade dos dedos

fragilidades
homens com pés enlameados
nas artérias diáfanas
no sono definitivo.

pernoito e a manhã não tardará a perseguir-me
com as suas agulhas incandescentes

tudo o que tenho são pequenos sentimentos
à prova de bala

os mesmos rastos no caminho de casa.

Fantasia VII

Senhor Gentil


made in Leixões