no éter dos dias
adormeço com violência
no meu corpo
na vacuidade cirúrgica da chuva
e no próprio uso da palavra
vacuidade
que me confunde.
dou-me conta das palavras que uso para não me reflectir demasiado
ou para desviar a atenção da minha voz
porque todo o reflexo é repetição
e mesmo estes axiomas polidos nada mais são do que
ecos
no éter dos dias.
aliás,
todo o reflexo é repetição
seria marcante não fosse o facto de ser algo que naturalmente diria
e, afinal, não fujo aos reflexos mesmo pensando que o faço.
nem sequer Poesia, mesmo pensando que o faço.
seria mais fácil fazer engolir estes versos agudos e ambíguos e orgulhosamente brilhantes a certos escolásticos que vibram e batem palminhas à
vacuidade
e a tudo o que se aproxime de algo como:
como o reflexo é repetição
sei que me dariam palmadinhas nas costas e beijinhos na testa e perguntar-me-iam "para quando um livro", já que tão bem sei usar o léxico, referências filosóficas platónicasocráticasaristotélicas, conceitos-base-conceitos-tecto, "toda a Literatura é paraliteratura, metaliteratura, etc etc...", referir-se-iam a mim como "um jovem promissor" e surgiriam sorrisos discretos.
no fundo, seríamos todos felizes e rapidamente teria a primeira edição do meu livro de textos, nunca poemas pois seria humilde, nos escaparates e até, quem sabe, junto a um CD de uma banda underground mas "extremamente gabada e reconhecida no estrangeiro".
seria a cara de um movimento urbano intelectualizado, jovens no Metro a lerem o meu livro acenando que sim com a cabeça.
teria mil e um padrinhos, todos Exmos. Srs. e Exmas. Sras., todos calmos e compreensivos, todos professores de Português e críticos literários.
assim,
vacilo caio ergo-me
no Absurdo,
multiplicando por mil
todas as vozes da Caverna
contra o estupor e a languidez dos espíritos
pois uma voz contém em si o sémen da eternidade.
1 comentário:
Grande. Grandioso. Fantástico. Pouco mais há que se possa dizer. Imagens fabulosas, como só Tu sabes fazer.
Enviar um comentário